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Medos e incertezas no exercício da prática profissional

  • Autor: Profa. Dra. Maria Lucia Rodrigues

"A esperança é uma alegria instável nascida da ideia de uma coisa futura ou passada de cujo desenlace duvidamos em certa medida... não há esperança sem medo." (Espinosa)

De que temos medos? Quais nossas mais banais inseguranças? O que nos assusta, nos afronta, nos provoca certo gosto de morte? Às vezes temos mais medo daqueles que não têm medo - como podem não tê-lo? São tantos os medos que torna-se difícil identificá-los: medo da adversidade, da depressão, medo do homem, da loucura, da traição, medo de não ser aceito, medo da pobreza, da riqueza, da injustiça, da exclusão, medo do aniquilamento, medos das prisões internas ou externas. Medos paradoxais, ou seja, os medos sim e os medos não. Medos que nos instigam à servidão, como nos lembra Chauí, "É então, quem sabe, nesse ’medo que esteriliza os abraços’ que descobrimos não termos medo disto ou daquilo, de algo ou de alguém, já nem mesmo medo de nossa própria sombra, somente medo do medonho. Susto, espanto, pavor. Angústia, medo metafísico sem objeto, tudo e nada lhe servindo para consumar-se até alçar-se ao ápice: medo do medo. Juntamente com o ódio, o medo, escreveu Espinosa, é a mais triste das paixões tristes, caminho de toda servidão. Quem o sentiu, sabe”.

Indagar os sentimentos que se desdobram destas emoções, localizar com franqueza nossas dificuldades - que transitam entre o pessoal e o profissional - e buscar esclarecê-las, reconhecer os próprios limites e saber pô-los a nu em reflexões partilhadas ainda que em meio a opiniões divergentes, continua sendo um exercício pouco comum e delicado. Falar deste tema é pouco comum.

Conversamos pouco sobre como fazemos o que fazemos, sobre o que sentimos quando fazemos nossa prática: como nos relacionamos profissionalmente, como compreendemos nossa profissão, quais sofrimentos nos acolhem, como atendemos uma pessoa, de que maneira realizamos uma visita domiciliar, o que falamos a um doente crônico, de que modo trabalhamos com o idoso, como olhamos o jovem infrator, enfim, como experienciamos o doce e o amargo do dia-a-dia. A cultura da objetividade científica forjou um tipo de intelectual quase duro. Talvez seja necessário retomar a sensibilidade para o exercício mais competente e solidário da prática do Serviço Social.

Nosso propósito neste ensaio consiste em cavar um espaço mais largo para discutir o teor de algumas destas dificuldades, principalmente quando entre nossas preocupações encontram-se aspectos que envolvem velhos medos e velhas inseguranças, solo de incertezas e prováveis riscos, de emoções tão presentes no cotidiano da vida pessoal e profissional.


1. Emoções e sentimentos

Em dias difíceis como os de hoje, em que impera a falta de vontade política para quase tudo que diga respeito à vida e à emancipação humana, não é incomum certo esgotamento de idéias e de utopias, um dar de ombros às participações e, em decorrência, certo esmorecimento de nossa presença nas decisões, nas ações; muitas vezes agimos sem muita convicção, com uma espécie de "consciência dividida ou amortecida", ou seja, nem muito racional, nem muito alienada.

Sairemos deste desconforto quando reassumirmos com mais generosidade e acolhimento as dificuldades e os erros que vivenciamos, pondo-nos em curso para melhor nos conhecermos, re-orientando nossas atividades e participação nas diferentes instâncias da vida; se o conhecimento reflete o mundo externo e interno do homem, reflete do mesmo modo seus erros, acertos, ilusões e esperanças.

É necessário contar com isto sem intimidações, sem desatrelar o mundo do afeto do mundo do intelecto. "A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e as perturbações mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos de erro. Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando toda a afetividade. De fato, o sentimento de raiva, o amor e a amizade podem nos cegar. Mas é preciso dizer que já no mundo mamífero e, sobretudo, no mundo humano, o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade, isto é, da curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da pesquisa filosófica ou científica. A afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também fortalecê-lo".

A consciência desta condição constitui uma dimensão do aprendizado sobre o sentido de homo sapiens/demens, de sua unidade e sua diversidade genética e genérica: fazemos parte da espécie humana mas somos únicos, somos individuais mas expoenciamos o coletivo dos homens. Não somos só racionalidade, bondade, sabedoria, magia, amor, trabalho; somos também loucura, consumo, debilidade, maldade ... a moeda inteira em seus dois ângulos. "Há relação manifesta ou subterrânea entre o psiquismo, a afetividade, a magia, o mito, a religião. Existe ao mesmo tempo unidade e dualidade entre Homo faber, Homo ludens, Homo sapiens e Homo demens. E, no ser humano, o desenvolvimento do conhecimento racional-empírico-técnico jamais anulou o conhecimento simbólico, mítico, mágico ou poético".

Mas, e o que são emoções? Difícil conceituar. Qualquer ângulo que se queira acolher (na perspectiva da psicologia, da antropologia, da sociologia, etc.) será insuficiente para corresponder à pluralidade de momentos e situações que exercitamos na vida. Emoção é polissemia e pluridimensionalidade de sentimentos que percorrem o mundo dos afetos e desafetos, o mundo do amor e do desamor, do conhecimento e do desconhecimento.

Estudiosos da inteligência emocional vêm nos alertando sobre a importância das emoções num mundo de relações cada vez mais individualizadas, que valorizou muito mais a razão, o intelecto em detrimento do emocional dos indivíduos. "...emoção se refere a um sentimento e seus pensamentos distintos, estados psicológicos e biológicos, e a uma gama de tendências para agir".

As emoções, complexas reações neurais, afetam todo o sistema operativo do pensamento tendo nos sentimentos suas qualidades constitutivas. Afirma Maturana (2001,p.29) que são as emoções quem guiam o fluir do comportamento humano e lhe dão seu caráter de ação, isto é, as diferentes emoções que distinguimos em nosso cotidiano correspondem a distintos domínios de ações relacionais. Diz ainda, que somos seres biologicamente, constitutivamente amorosos, e é este o fundamento humano; ficamos doentes quando se interfere com o amor em qualquer idade e é ele, o primeiro remédio para qualquer enfermidade (Idem, p.39). Se aceitamos a idéia de que é a emoção define o caráter da relação é ela também quem define as relações de trabalho. No trabalho relacionamo-nos sob a emoção da obrigação, da responsabilidade, da competência, as vezes da vaidade, da competição, outras do afeto; somos comprimidos por um conjunto de emoções. Nas relações sociais, relacionamo-nos basicamente na confiança e o respeito mútuo (segurança e risco). Mas a emoção fundamenta que constitui as relações sociais é mesmo o amor, a aceitação do outro como um legítimo outro em coexistência com alguém (comigo). A cooperação ocorre nas relações sociais e não nas relações de dominação e sujeição. (idem p.60).

Medos e incertezas espelham, entre um vértice e outro, a intrínseca relação entre o sujeito que conhece e o fenômeno que procura compreender, investigar; a esperança e o anseio pela qualidade das relações interpessoais e sociais, o desejo por um futuro profissional mais competente são metas que dependem ainda do modo como lidamos com as emoções, os conhecimentos, a maneira como desenvolvemos nossa convivência profissional, as condições de pesquisa e a cultura da profissão.


2. Consciência e Conhecimento

Para Edgar Morin o conhecimento é um processo cognitivo que se estabelece pela conjugação entre razão/reflexão, erro/incerteza, objetividade/subjetividade; no trânsito entre estes duplos, inclusive na inter-relação possível que se estabelece entre eles, o conhecimento é atravessado sempre pela emoção, condição essencial de ativação cognitiva. Para compreendermos o ser subjetivo não é suficiente somente o conhecimento objetivo mas também uma compreensão humana, que "...nos chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas alegrias. Permite-nos reconhecer no outro os mecanismos egocêntricos de autojustificação, que estão em nós, bem como as retroações positivas ... que fazem degenerar em conflitos inexplicáveis as menores querelas. É a partir da compreensão que se pode lutar contra o ódio e a exclusão".

Vivemos hoje, uma exclusão social abrangente e disseminada, que não se limita às condições materiais de vida e acesso aos bens e serviços; estende-se às condições de qualificação e competência, valores, solidariedade, afetividade, aceitação, respeito, parceria, valorização da vida, ética, cidadania.

Uma das condições para enfrentar a exclusão está no conhecimento; será necessário apreender o sofisticado exercício de produzir luz à nossa consciência, conforme propõe António Damásio , de modo a estabelecer constante conexão entre o desejo de compreender e de conhecer, mantendo o aprendizado como uma constante para manter vivo o impulso de cultivar a si mesmo, desenvolver o interesse pelos outros tendo por horizonte a elevação da qualidade de vida. Aceitar a idéia da "...consciência como um sentimento de conhecer..." cujas estruturas alicerçam-se no si mesmo e nas imagens e leitura que processamos significa também compreender que o "...preço que pagamos por essa vida melhor é alto. Não é só o preço do risco, do perigo e da dor. É o preço de conhecer o risco, o perigo e a dor.... o custo de uma existência melhor é a perda da inocência sobre essa mesma existência" .

A separação entre o emocional e o racional, simbolizada respectivamente pelo coração e pela cabeça, provocou confusões e cerceamentos aos processos de emancipação e autonomia humanas. A inter-relação emocional x racional é responsável pela mediação entre os conhecimentos e os modos como nos orientamos e agimos na vida. Quer dizer, entre o pensar, o sentir e o agir não pode haver hierarquização ou supremacia; a lógica recursiva tem aqui sua máxima: não há pensamento sem sentimento e, sem ambos não há ação consciente, ou seja, apesar dos conflitos constantes, os sujeitos se constroem nesta correlação e através dela buscam a plenitude, o livre pensar, a livre expressão, engajando-se e sentindo-se participantes na construção de sua cultura, de sua sociedade.

Pensamento e conhecimento alimentam-se de incerteza. Morin aponta três princípios de incerteza no conhecimento:

  •       "o primeiro é cerebral - o conhecimento nunca é um reflexo do real, mas sempre tradução e construção, isto é, comporta risco de erros;
  •       o segundo é físico - o conhecimento dos fatos é sempre tributário da interpretação;
  •       o terceiro é epistemológico - decorre da crise dos fundamentos da certeza em filosofia (a partir de Nietzsche), depois em ciência (a partir de Bachelard e Popper).

Conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza".

Neste sentido, conhecer significa dispor-se a enfrentar o inesperado com uma predisposição consciente para apreender tudo quanto se desdobra da interação entre o que já sabemos sobre determinado objeto e o que esse objeto proporciona de inusitado. O conhecimento é libertador quando fundamenta uma expectativa racional e emocional do âmbito da realidade social e histórica.

Medos, incertezas, a perspectiva do erro, do inesperado, provocam desafios de ordens diversificadas. A formação para as novas competências e habilidades no que tange às mediações e novas estratégias para agir derivam da capacidade que reunimos para conjugar sentimentos e conhecimentos. Sob esta ótica, para aqueles que se preocupam com o difícil exercício de articular os conhecimentos coloca-se uma séria responsabilidade e desafio, a formação de uma nova consciência humano-social. Nesta direção, alguns aspectos merecem reflexão:

  •      considerar a dúvida, a crítica, o contexto e a criatividade como critérios para a cientificidade;
  •      confrontar os limites da lógica e do conhecimento;
  •      buscar qualidade de formação do pensamento crítico no exercício da autocrítica e do autoconhecimento;
  •      apreender a auto-observação para lapidar a lucidez;
  •      capacitar-se de modo continuado na aprendizagem da compreensão e da lucidez;
  •      valorizar a sensibilidade solidária como conhecimento;
  •      comprometer-se com uma aprendizagem e uma prática cidadã - "todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana";
  •      aprender a, compartilhar, conhecer e responsabilizar-se pelas idéias, pelas ações, pelas decisões e construção de uma nova cultura.

De qualquer modo, diz Damásio "(...) melhorar as condições da existência é precisamente a finalidade da civilização, a principal conseqüência da consciência; e, por no mínimo 3 mil anos, com recompensas maiores ou menores, melhorar é o que a civilização vem buscando. A boa notícia, portanto, é que já começamos."


3. Reconhecendo alguns "medos" no exercício da prática profissional

Como docente observo que a maioria das teses e dissertações de mestrado e mesmo as de doutorado mais especificamente em Serviço Social, mostra a constituição do sujeito cidadão como preocupação central do projeto de formação, da prática profissional, da proposta educativa. A prática do Serviço Social é basicamente, uma prática de relações que se desenvolve no cerne das diferentes manifestações das questões sociais preocupando-se em promover a conjugação entre o eixo de organização/desorganização da vida social tendo em vista uma distribuição mais justa dos bens e serviços sociais. Expectativas prospectivas de transformações sociais requerem ações qualificadas e competentes para trabalhar com a condição de pobreza humana (e as situações limites vivenciadas pelas populações excluídas socialmente).

Revendo algumas dissertações de mestrado e teses de doutorado defendidas nos últimos dois anos, foi possível perceber certa oscilação ou mesmo dificuldade para compreender o que é Serviço Social, no que consiste o exercício e o destino desta prática profissional. Tenho a intuição de que precisaremos abrir nossas fronteiras político-sociais, abandonar as reflexões mais simplificadas, visualizar a potencialidade de nossa profissão e a séria contribuição prospectiva para a formação das liberdades individual e coletiva.

Ainda que o imprevisto, a incerteza, o risco teçam, nos meandros, certa des-organização profissional será este mesmo movimento o reabilitador e auto-organizador de uma nova consciência histórico-profissional.

"O Serviço Social entende e encaminha problemas" ... "o profissional sai da faculdade tão inseguro de seus conhecimentos"... "Nós não estamos lidando com o exato, estamos lidando mesmo com o caos. Organizar esse caos é uma coisa muito complicada!"... "O aluno de graduação não tem preparo para defrontar-se com as situações com que se depara"... "A profissão não lhe dá esse preparo"... "saí da faculdade com uma visão ingênua do mundo, achando que realmente ia resolver os problemas das pessoas; peguei aquele momento que o assistente social era um agente transformador"... "a ilusão de transformar, como se fosse um passe de mágica, mas não é bem assim, até porque o ser humano é complexo - é um ser social, cultural, psicológico e o trabalho com o ser humano é gradativo"... "O Serviço Social é uma profissão de prática"... "ela tem um conhecimento geral, amplo... é a profissão que mais consegue ter uma visão do todo"..."O Serviço Social é uma colcha de retalhos"... "é uma profissão muito prática"... "tem essa função de educar"... "Serviço Social trabalha as relações sociais"... "é uma atividade voltada para um fazer na direção da cidadania, da justiça social, dos direitos sociais"...

"O profissional (neste caso aquele que trabalha com sujeitos aidéticos) é o intelectual que consegue fazer (boa) leitura da realidade; ele tem a responsabilidade de orientar sobre a prevenção (contra o HIV), estudar e esclarecer sobre a tuberculose que é transmitida pelo ar, etc.; se você respira precisa de prevenção e de tratamento se estiver doente; é uma questão de saúde pública. Temos que ter conhecimento e sensibilidade para lidar com estas questões. É preciso perceber que há perda de saúde e eminência da morte; é preciso trabalhar com isso."

"A sensibilidade é importante neste trabalho para todos os profissionais. O conhecimento adquirido na filosofia, psicologia, sociologia, as ciências humanas, é necessário para entender o outro lado das coisas..."

"Este trabalho (com aidéticos) exige um conhecimento ampliado. É um conhecimento também que transcende o lado científico da terapêutica mendicamentosa, e se volta mais para o ser humano."

--"Fui tomada por uma emoção tão forte que nem sei explicar; só sentia medo; fui invadida por um medo de agressão, medo de que o usuário - portador de distúrbios psíquicos - pudesse matar a própria família; aconteceu no meu plantão. Ele pegou uma faca grande de ponta e não a soltava, andando em nossa direção... só em falar fico perplexa, passei mal mesmo, foi muito pesado!

-- Mas qual foi o medo, F.?

-- Não sei explicar, fiquei apavorada. Depois de tantos anos, de tanta experiência, não sei explicar porque senti todo esse pavor! Quando retomei o trabalho no dia seguinte, mal conseguia entrar no Núcleo; não sei, estava paralisada, parecia que ia morrer. Mal conseguia andar para entrar no prédio em que trabalho! Uma colega me disse: vamos F., se quiser entramos juntas! Entrei, e aquele paciente, que fizera tudo aquilo nem me olhou, já estava medicado, talvez nem se lembrasse do que havia ocorrido em dia anterior! Eram tantos os medos, inclusive pelos profissionais que ali estavam (auxiliares de enfermagem, serviçais) e cada medo de uma natureza. Eu falava aflita: não dá para ficar com esse paciente assim aqui, ele está sem controle, não darei conta dele ...

-- Mas quais eram os medos? Da agressão? Da morte?

-- Da violência, da loucura... liberada ali em minha frente...

-- Mas o que esse usuário fez que acionou esse medo?

-- Fiquei pensando depois que o que estava na base desse medo era a responsabilidade, a sensibilidade, a competência porque eu era responsável pelo plantão! Tinha medo por mim, pelo usuário, por sua família - a possibilidade dele ir lá e matar todo mundo -, pelos colegas, sentia uma grande solidão, e tudo isso num cenário de ameaça constante; só estava eu e os auxiliares! Depois do medo sentia certo desaponto e constrangimento; tenho refletido sobre esta situação. "

O Serviço Social é uma profissão que engendra atividades diversificadas, decorrentes dos múltiplos desdobramentos das situações sociais de extrema pobreza em que vivem as populações excluídas e das políticas sociais porquanto insuficientes e personalistas, desenvolvidas pelo poder público e grupos de interesse.

Os depoimentos que citamos colocam-nos diante de realidades e de uma cultura profissional que precisam ser melhor cuidadas e equacionadas. De um lado, encontram-se falas diversas sobre o significado da profissão que nos permitem pensar sobre suas interfaces, suas diferenças e seu poder de ação; de outro, a visualização de ângulos da profissão nem sempre priorizados; a evolução dos trabalhos no campo da saúde, dos jovens, dos idosos e do ensino faz necessária a busca responsável por novos conhecimentos, a disposição para o auto-conhecimento e a atenção à formação de uma sensibilidade solidária. De acordo com Mo Sung e Assman "Solidariedade não é uma questão temática... tem a ver com o modo de ver o mundo e a vida. Solidariedade é uma relação inter-humana fundamentada na alteridade, que pressupõe o reconhecimento do outro na diferença e singularidade, atributos da alteridade. (...) A palavra sensibilidade quer mostrar que a solidariedade como ato ético-subjetivo radical só acontece quando entram em jogo os ’sentidos’, como percepção empática do sofrimento e angústia dos outros"

Ao profissional de Serviço Social coloca-se o desafio de reconhecer o conhecimento sobre o humano, cabe definir-se sobre as estratégias de ação, os modos de agir (sua auto-ética) e seu eixo de conduta profissional (ética). A auto-ética é uma qualidade correlata a condições históricas e culturais do indivíduo, que se funda nos valores e ideais, históricos e sociais escolhidos por si mesmo; é uma ética política que supõe primordialmente a restauração do sujeito responsável como pré-requisito para o conhecimento objetivo. "A restauração do sujeito comporta a exigência do auto-exame, a consciência da responsabilidade pessoal, e o encargo autônomo da ética (auto-ética)"

Todas as decisões carregam incertezas nas ações que nem sempre desenvolvem-se na direção das intenções que as orientavam inicialmente. Temos visto reafirmadamente que toda a ação é orientada por uma intenção mas é importante considerar a possibilidade de que nem toda ação mantém a intenção que a gerou; articulada aos desdobramentos da ação em seu decurso a intenção também se altera. Nos casos mencionados, é importante constatar que é o conhecimento do estrutural/conjuntural até o microssocial ou das ações mais pontuais e parcelares, que vai produzir maior segurança na profissão e o exercício de uma prática mais confiante e qualificada.

Como afirma Anthony Guiddens, a confiança é o contraponto do medo, do risco, é um ângulo das relações sociais que precisa ser trabalhado por aqueles que são envolvidos nas tramas relacionais; a confiança requer a abertura de um para outro. Todos os relacionamentos "são laços baseados em confiança, onde a confiança não é pré-dada mas trabalhada, e onde o trabalho envolvido significa um processo mútuo de auto-revelação."

A reconstrução dos conhecimentos em Serviço Social vai requerer uma reforma do pensamento do profissional, organizando os saberes e permitindo a manifestação inteligente das idéias e das ações. Trata-se de um movimento de religação, contextualização e globalização desses conhecimentos com os quais será possível construir os alicerces para a formação de um profissional crítico, sensível, menos resistente às incertezas, a si mesmo, um profissional mais integrado à vida e às criações humanas.

Bibliografia:

Notas:

- Cf. Marilena Chauí, Sobre o Medo in Os Sentidos da Paixão, São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p.39.

- Edgar Morin, A Cabeça Bem-Feita, Trad. Eloá Jacobina, Rio de Janeiro, Bertrant Brasil, 2000,p.51.

- Edgar Morin, Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, Tra.d. Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya, São Paulo, Cortez e Unesco, 2000, p. 59.

- Daniel Goleman Inteligência Emocional, Trad. Marcos Santarrita, Rio de Janeiro, Ed.Objetiva, 1995, p. 303.

- Há na obra de Edgar Morin uma preocupação central com o sujeito do conhecimento, seu modo de pensar, suas estratégias para agir. De um ponto de vista, o que mais lhe marca originalidade, é o desafio que lança ao sujeito que pensa, age, relaciona-se, de promover uma religação dos conhecimentos, uma reforma do pensamento capaz de reorientar esses conhecimentos para a melhor qualidade de vida e elevação da condição humana. Sobre esta matéria ver, Ciência com Consciência, O Método (I,II,III,IV), Meus Demônios, A Cabeça Bem-Feita, entre outros.

- Edgar Morin, A Cabeça Bem-Feita, idem p.51.

- António Damásio, O Mistério da Consciência, Comp. Das Letras, São Paulo, 2000.

- Idem, p. 395.

- Idem, p.399.

- Idem, p. 59.

- Hugo Assman e Jung Mo Sung, Competência e Sensibilidade Solidária, Vozes, São Paulo, 2000, p.98.

- Edgar Morin, Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, idem p.55.

- António Damásio, O Mistério da Consciência, Comp. Das Lestras, São Paulo, 2000, p.399.

- Fragmentos de falas de assistentes sociais e alunos de Serviço Social, sujeitos de pesquisa de dissertação de mestrado defendida por Isabela Sarmet de Azevedo, sob o título As Travessuras do Serviço Social: entre o criar e o recriar a realidade do profissional, PUC/SP, 1999.

- Fala de assistentes sociais, sujeitos de pesquisa da dissertação de mestrado defendida por Dagmar Creilde dos Santos, sob o título O Processo de Interação entre o Assistente Social e o Usuário HIV/AIDS, PUC/SP, 2000, p.55.

- Idem, p. 56.

- Idem, p.56

- Situação narrada por uma das participantes no Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino e Questões Metodológicas em Serviço Social - Nemess/PUCSP, em atividade reflexiva sobre o tema.

- Hugo Assman e Jung Mo Sung, Competência e Sensibilidade Solidária, Vozes, São Paulo, pgs. 97/98.]

- Entre outras obras ver, As Consequências da modernidade, Trad. Raul Fiker, São Paulo, Ed.Unesp, 1991.

- E. Morin, Ética do Sujeito Responsável in Ética, Solidariedade e Complexidade, São Paulo, Palas Athena, 1998, p.71.


Para citar este artigo no formato ABNT:

 RODRIGUES, M. L. Medos e incertezas no exercício da prática profissional. NEMESS Complex. 2000. Disponível em: < http://www.nemesscomplex.com.br/conteudos?id=5/medos_e_incertezas_no_exercicio_da_pratica_profissional>. Acesso em: dd mmm. aaaa.




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